terça-feira, 2 de agosto de 2011

Máscaras

(...)COLOMBINA , sorrindo e tomando ambos pela mão:

Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor de todos dois... Hesitante, entre vós, o coração balanço:


A Arlequim:

O teu beijo é tão quente...

A Pierrot:

O teu sonho é tão manso...

Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma! Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra!
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade...
Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente,
porque a história do amor pode escrever-se assim:

PIERROT
Um sonho de Pierrot...

ARLEQUIM

E um beijo de Arlequim!

Por Menotti Del Picchia.

Eu amo esse conto.

domingo, 7 de novembro de 2010

Tamara, Samara ou Iara

Não.
Não era seu beijo,
logo não tinha o bracejo
de nenhum pouco de meu desejo.

Sim.
Lembro-em ter admitido
a necessidade de deixá-la ir
sem a impedir, sem ressentir
ou insistir.

Mas aquele lábio não era tão vívido.
Não era da minha megera.
Era de Tamara, Samara...
Ou era Iara?
Mas não era daquela que
enquanto o beijo não para
o desejo dispara,
a mente enlouquece,
enquanto o sangue aquece,
a ponta do dedo que estremece
e a vontade mostra a cara
mostra o acentuado desejo
pela carne da qual carece.

Não. não quero outra qualquer.
Sim. A deixei. Precisei deixá-la partir.
Talvez por esse amor não existir
ou para manter naquele rosto, o sorrir.
Ainda que com a plena certeza
de que aquela carne é a unica que meu corpo quer
e requer.
Ainda que sem desejar outra que vier,
Manterei-me na saudosa e aguada vontade
de abraçar meu corpo
no corpo daquela mulher.

Por Psy O.L

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Carta

Que mantenha-se explícito nessas palavras quaisquer, que eu, no auge dessas tolices apaixonadas
ainda insisto em nomear-lhe minha, sem que seja minha mulher.
Veja você que burrice! Estou ainda estagnada num auge que a muito, já passou.
E nessa plena teimosia iludida, vivo ainda soprando faíscas em cinzas
na esperança de manter aceso o que a muito se apagou.
Quer saber se odeio ou se amo esse contexto?
Não sei bem. Não quero saber. desconheço. Tudo o que sei é que a amo
a desejo sem razão e sem pretexto.
Ah! O que posso eu fazer? Sou uma eterna romântica abobalhada, ainda vidrada e encantada por aquele ser.
Ainda provando a pele da morena através de vestígios de sabor que ainda repousam em meus lábios daqueles tempos em que eram válidos apenas os dias ao seu lado.
Saber bem o que se passa em mim, não sei.
O que sei, é que fui, sou e serei apaixonada, alucinada pelo vício desse amor que por tanto carreguei.
E ainda dentro de mim, para o futuro, a levarei.
Portanto, se a odeio, a amo ou a suporto, nunca saberei.
Apenas sei que odeio o amor. Mas que amo a trigueira confusa que sempre amarei.

Por Psy O.L

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Quase um segundo

Eu queria ver no escuro do mundo
Onde está o que você quer
Pra me transformar no que te agrada
No que me faça ver
Quais são as cores e as coisas pra te prender
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa...?

Às vezes te odeio por quase um segundo
Depois te amo mais
Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo
Tudo que não me deixa em paz
Quais são as cores e as coisas pra te prender
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei,
Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa...?

Compositor: Herbert Vianna
Interpretado por Cazuza no album Burguesia - 1989

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Oi

Tenho esticado a ponta de cada dedo na tentativa de ao menos raspá-los ternamente sobre os ares da inspiração na esperança de a trazer de volta.
Enquanto falhas tentativas me abordam nesse mar de palavras repetidas, vazias e sem rumos, declaro greve.
Ate encontrar palavras.
Ate reencontrar algum sentimento, sórdido ou não.
Ate achar uma outra musa inspiradora
que irá novamente, estripar meu coração.

Enquanto não a encontro,
parei de escrever.

Por Psy O.L

domingo, 29 de agosto de 2010

Covarde

Ah! Nada como refletir em um barco à deriva no oceano. As ondas se chocando levemente contra o barco, o balançar do barco, o vento, os albatrozes...
Nada como perceber que a culpa de tudo é sua. E que na verdade, esta sentindo raiva da pessoa errada. Deveria sentir raiva de si. Raiva da sua própria covardia, da estagnação em relação a uma partida. Raiva de não ter nem ao menos tentado fechar a mão pra evitar que seu lindo passarinho de belas cores, batesse as asas para longe.
Não há nada igual. Perceber que é uma pessoa fraca. Sem força de vontade. A mercê da correnteza lenta, quase parada, da vida. Não há nada igual.
Pena que eu tenha feito tudo na coragem brilhante de expor ate mesmo a cara a tapas.
E corri, quase voei correndo atrás de quem já tinha ido a muito tempo. De quem é fraco, sem força de vontade, sem coragem. Um ser completamente covarde que vive deixando a correnteza carregar um corpo quase morto.
Pena que fechei a mão com toda força pra não deixar aquele belo pássaro voar, mas ainda assim ele me escapou.
Pena que não sou um covarde. Com um outro alguém ou sem ninguém, mas covarde que não sofre.
Não teria nada igual ser um covarde que desama, foge e não chora.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Assinado, Aiko.

Rio de Janeiro, 20/10/2007.

Minha amada Kanã,

No mar fui me encontrar com a beleza de seus olhos, que nele refletem. Quem sabe mãe d'água não me devolve o sabor de seus lábios hora azedo, hora melado?
Quis sim, me entregar ao mar, donde sereia que és tu, nunca deveras ter saído. Mas saiu. E me encantou com seu canto silencioso. Agora me esvaio no mar em busca de sentir o cheiro das águas, matar minha sede em sua salina, me encontrar com sua soberania, poder afagar-me em sua eterna e dadivosa perfeição. Encantadora medusa que me envolveu em seus longos braços desnorteantes, ainda sinto seu calor atordoador, queimando, aquecendo os poros de minha pele. Fui buscar-te, medusa, no fundo daquela tela cristalina azulada, esverdeada e só hei de voltar quando reencontrar seu encanto divino.
Quanto a tua realeza carnal em terra? Não há motivos a se roer de saudade, tão pouco para se abater em culpa. Não chores linda menina-mulher que sem querer, sem saber foi colombina de meu amor pierrô. Foi colombina desse maldito pierrô em silêncio que fui. Não chores por culpa, menina inocente. Saiba minha linda Deusa em preto e branco, que este ser miserável em carne há de sorrir em alma agora. Saiba que se esta loucura de querer fazer do manto azul, o leito derradeiro de minha presença carnal, vier lhe atormentar, jogue flores ao mar. Recolherei-as maravilhada com cada pétala. Jogue cartas ao mar. Se eu não as ler mãe d'água há de cantarolá-las para mim.
Vou-me assim, meu retrato de Cleópatra, vou libertar minha alma para caminhar do inferno ao paraíso para enfim crer em Dante Alighieri, para enfim dormir sob o imenso manto de água que cobre os oceanos e por fim descansar de toda esse pouca e jovem vida sofrida. Dormirei e me aconchegarei eternamente em sua memória e me entorpecerei de sua beldade em meu sonho eterno, onde te tenho minha flor de lis, meu botão de rosa.
Estas meras palavras, direcionei a te acalmar e te fazer sorrir. Pequeno decreto que expressa o quanto exalo felicidade ao poder me equilibrar entre os cosmos no infinito azulado que cobre a todos nós. Vou brilhar entre as estrelas enquanto pulo pequenos barrancos nesses pequenos corpos celestiais antigos e brilhosos, e vou viajar à cometa, conhecer outros planetas. Lá eu hei de ser feliz.
E se escorre alguma lágrima em sua face, seque-as, pequena. Não te entristeças por mim. Não estou triste, Não vê? Estou radiante em felicidade. Então sorria comigo amazona guerreira quase minha. Divida comigo esse último sorriso. E quando enfim tiver lido esta, não me julgue suicida. Por favor não me compare a tão baixo calão. Suicidas não querem existir. Não gozam de nada e apenas se matam. Se livram de viver. Não me suicidei. Amei a vida, gozei dela a cada suspiro que me causou, meu doce anjo alado. Mas fui luxuriosa e quis conferir em alma o que em carne não se pode ver, sentir ou ter.
Assim finalizo a minha declaração em desculpas, desabafo e explicações. Pouco sei se esta estará em suas mãos ao amanhecer, monalisa de minha parede eterna, mas espero que receba esta, de algum mensageiro caridoso.
Aos companheiros de uma vida, minha breve saudade, carinhos e adeus. Aos meus laços sanguíneos, me perdoem.
Mas digo e grito para quem quiser ouvir, atei meus olhos em mar por amor, ternura, prazer, por feroz paixão que me consumiu em razão desse meu último suspiro que foi a última dose de Kanã. Entre essas doses, me embebedei, me entorpeci entre o sabor confuso daqueles beijos. Consumi cada gotícula de prazer que ousou tocar meus lábios.
Assino aqui, com meu coração devotamente apaixonado pela vida que só descobri e entendi quase e unicamente depois de encontrar Kanã. Te amei, Kanã. Lhe desejei, lhe tive, lhe perdi. Mas te amei, como continuo e sempre te amarei. De tanto amor, minha bela, morri de amor.
Sentirei eternas saudades dessa sua pele, que já ardem em mim.

Assinado, Aiko.

- Trecho do livro 'Entre doses de kanã'

Por Psy O.L